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Artigo técnico regulatório Índice glicêmico na formulação e no cardápio: o que dá para calcular e o que não dá![]() O cliente quer saber o índice glicêmico do bolo que vai lançar. A nutricionista quer marcar no cardápio as preparações de IG baixo. A marca quer escrever "baixo índice glicêmico" na embalagem. Em todos os casos, quem atende tem a formulação, a ficha técnica e o cálculo da Tabela de Informação Nutricional (TIN), e nenhum deles traz o IG: ele não é um número de composição. Este artigo separa o que dá para calcular do que não dá: o que o índice glicêmico (IG) e a carga glicêmica (CG) medem, qual carboidrato a formulação entrega para a conta, como se estima o IG de uma receita ou refeição, por que essa estimativa não é o IG do produto e o que o IG pode e não pode fazer na TIN, no rótulo e no cardápio. 1. O que o índice glicêmico e a carga glicêmica medemO IG é um indicador de resposta glicêmica. Ele compara a curva da glicose no sangue depois do consumo de uma quantidade padrão de carboidratos de um alimento com a curva obtida com a mesma quantidade de carboidratos de glicose pura, à qual se atribui o valor 100. O número sai de ensaio com voluntários: a resposta ao alimento é medida e comparada com a resposta à referência, dentro da mesma metodologia. O IG foi proposto na década de 1980 como base fisiológica para a troca de carboidratos entre alimentos (Jenkins et al., 1981). A CG combina o IG com o carboidrato disponível da porção: CG = IG × carboidrato da porção (g) ÷ 100 A diferença entre os dois é a porção. O IG não considera o tamanho da porção; a CG, sim. Com valores ilustrativos: um alimento de IG 80 com 5 g de carboidrato na porção tem CG 4; outro, de IG 50 com 40 g, tem CG 20. Nessa porção, o de IG mais alto tem a CG menor. Nenhum dos dois integra obrigatoriamente a TIN, que declara o valor energético e os nutrientes. 2. O carboidrato que a formulação entregaA parte da CG que sai da formulação é o carboidrato, do mesmo cálculo que alimenta a TIN: ingredientes, quantidades, rendimento e dados de composição, ou análise laboratorial. O número da TIN, porém, tem definição regulatória. A linha "Carboidratos" abrange os monossacarídeos, dissacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos digeridos, absorvidos e metabolizados pelo ser humano, incluindo os polióis abrangidos pela definição (RDC nº 429/2020). As fibras alimentares têm linha própria e não se somam aos carboidratos. Os polióis integram a linha de carboidratos, mas não a de açúcares totais; como se declaram está em Polióis na confeitaria profissional: funções, riscos, comportamento tecnológico e regras de rotulagem. Para a CG, isso tem duas consequências:
Mais dois cuidados vêm do próprio cálculo da TIN. Os valores por porção e por 100 g derivam da mesma composição não arredondada, e a CG também parte dela, porque o número impresso na tabela já passou pelo arredondamento. E a quantidade por porção é a quantidade por 100 g vezes a porção, dividida por 100. 3. A carga glicêmica da porção: a contaCom um IG em mãos para a preparação, a CG é aritmética. A sequência:
Um exemplo com valores ilustrativos: uma preparação com 30 g de carboidratos por 100 g, servida em porção de 150 g, entrega 45 g de carboidrato (30 × 150 ÷ 100). Com IG 60, a CG é 27 (60 × 45 ÷ 100). A mesma preparação em porção de 80 g entrega 24 g de carboidrato e CG 14,4. O IG não mudou; a CG mudou com a porção. Por isso a CG do cardápio, calculada na porção servida, e a do rótulo, na porção declarada, só coincidem quando as duas porções coincidem. Ponto de verificação Na memória de cálculo da CG, estão registrados o carboidrato não arredondado, a porção usada (declarada na TIN ou servida), se há polióis no número e de onde veio o IG? 4. O IG estimado de uma receita ou refeiçãoQuando a preparação tem vários componentes com carboidrato, o IG do conjunto pode ser estimado pela participação de cada um no carboidrato total: IG estimado = soma de (carboidrato do componente ÷ carboidrato total × IG do componente) Com valores ilustrativos:
A CG da refeição é 57 × 50 ÷ 100 = 28,5, o mesmo que a soma das CG de cada componente: 21 + 6 + 1,5. O que a estimativa exige:
5. Por que a estimativa não é o IG do produtoA conta da seção 4 supõe que cada componente mantém, na mistura, o IG que tem sozinho. Os fatores que interferem na resposta glicêmica mostram por que isso é uma premissa, e não um fato:
Vários desses fatores são justamente o que muda quando a receita vai da bancada ao produto: a gordura da massa, o tempo de forno, a moagem da farinha, o ácido do recheio. A TIN declara quanto carboidrato há na porção; o IG depende também de como esse carboidrato está no alimento. A esse limite se somam outros dois. O IG do mesmo alimento pode variar com o método de preparo, com a variedade e com as diferenças individuais na resposta glicêmica. E nem o IG nem a CG informam o teor dos outros nutrientes, como fibras e gorduras. Daí a separação que o trabalho técnico precisa fazer:
Ponto de verificação O número que vai para o cliente diz se é IG medido no produto, valor de tabela de um alimento parecido ou estimativa ponderada da receita, e com quais premissas? 6. IG na TIN, no rótulo e no cardápioNa TIN. O IG e a CG não integram obrigatoriamente a tabela. E a declaração voluntária na TIN não é livre: ela precisa estar prevista na RDC nº 429/2020, na IN nº 75/2020 ou em norma específica, cumpre as mesmas exigências de veracidade e determinação da informação obrigatória e não pode servir para produzir alegação não autorizada. Antes de acrescentar uma linha de IG, a pergunta é se essa declaração está prevista. No rótulo, a frase se classifica antes de ser escrita. O enquadramento se faz pelo efeito que a mensagem produz no consumidor, e não só pelas palavras:
Três situações pedem atenção específica. O "low GI" de um rótulo estrangeiro não se traduz automaticamente: tradução livre pode criar alegação sem equivalente autorizado no Brasil. Nome comercial, imagem, gráfico e selo também podem sugerir alegação e entram na mesma classificação; a diferença entre selo obrigatório, certificação e selo próprio da marca está em Selos no rótulo: o que tem valor jurídico, o que é decoração e o que pode gerar autuação. E o guia ZR não traz, entre as alegações que descreve, nenhuma sobre índice glicêmico: qualquer frase pretendida se confere na fonte oficial vigente na data da liberação do rótulo. No cardápio e na comunicação. A informação nutricional em cardápio, vitrine, aplicativo ou material comercial precisa ser verdadeira e comprovável, e as alegações seguem os mesmos critérios. No produto embalado, a comunicação fora da embalagem não amplia o que foi autorizado no rótulo, e o rótulo segue a regra geral de veracidade e de não induzir o consumidor a erro (RDC nº 727/2022). Um texto que explica o que é IG, sem atribuí-lo ao produto, é educação geral; contexto, proximidade e recursos visuais não podem convertê-lo em mensagem do produto, como um "IG baixo" em destaque ao lado do prato. Em qualquer canal, o número de IG comunicado diz o que é: medido, de tabela ou estimado. Ponto de verificação A frase, o selo ou o destaque sobre IG foi classificado pelo efeito que produz no consumidor antes de ir para o rótulo, o cardápio ou a página de venda? 7. O que dá para calcular e o que não dá
O registro acompanha cada número: a fonte de cada IG (ensaio ou tabela, com a edição), o carboidrato usado e se ele inclui polióis, a porção, as premissas da estimativa e a versão da formulação a que tudo se refere. Sem isso, o número não se reproduz, e uma estimativa passa por medida. ConclusãoO IG não sai da formulação: é uma resposta medida em ensaio. A CG sai, desde que haja um IG para multiplicar e a porção esteja dita. Entre os dois, a média ponderada da receita é uma estimativa, e precisa ser chamada assim. Nenhum desses números vira mensagem de rótulo ou de cardápio sem antes passar pela classificação da frase e pelas regras da classe em que ela cai. Referências
Referências Normativas
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